Quando o cachorro Orelha foi morto em Santa Catarina, a notícia correu rápido.
Não apenas pela violência do ato, mas pelo detalhe que incomodou ainda mais: os responsáveis eram adolescentes. E não adolescentes quaisquer. Eram filhos de empresários, de famílias conhecidas na região. Meninos que fizeram aquilo por pura maldade.
Num primeiro momento, parecia mais um daqueles episódios que chocam por alguns dias e depois desaparecem no feed interminável de notícias. Mas esse caso não desapareceu. Pelo contrário, ganhou alcance internacional.
Porque a morte do Orelha não ficou restrita ao noticiário policial. Ela atravessou essa fronteira e chegou ao mundo dos negócios.
Agências de turismo começaram a cancelar contratos. Entre elas, nomes grandes e conhecidos, como a CVC e a ERS Turismo, que decidiram romper relações comerciais com empresas ligadas às famílias dos adolescentes.
Não se tratava de um julgamento jurídico.
As agências não estavam condenando ninguém nos termos da lei. Estavam protegendo suas próprias marcas. Evitando carregar um nome que, naquele momento, passou a representar um risco reputacional difícil de administrar.
Os clientes fizeram o mesmo. Optaram por gastar seu dinheiro em outro lugar. Não por ódio. Não por militância. Mas por desconforto. Porque ninguém gosta de se sentir cúmplice, ainda que indiretamente, de algo que fere valores básicos.
Durante muito tempo, empresas acreditaram que bastava cumprir a lei.
Alvará em dia. Impostos pagos. Funcionários registrados.
Claro, isso continua sendo necessário.
Mas já não é suficiente.
Hoje existe algo menos formal e muito mais decisivo em jogo: a licença social para operar. Ela não vem escrita em papel. Não é concedida por um órgão específico. Ela é dada, retirada e reavaliada todos os dias pela sociedade.
É aquela autorização invisível que, sem ser dita, afirma:
“essa empresa pode estar aqui”.
Quando essa licença existe, a empresa atravessa crises com mais fôlego. Erra, aprende, corrige. Quando ela não existe, qualquer faísca vira incêndio. E não adianta explicar depois. O julgamento já aconteceu.
O caso do Orelha nos lembra que existe um holofote do escrutínio moral permanentemente colocado diante das empresas. Esse holofote não acende apenas nas grandes crises. Ele já está ligado. Observando decisões pequenas, rotinas ignoradas, silêncios convenientes. A forma como uma organização lida com aquilo que não gera lucro direto.
Ele revela quem a empresa é quando ninguém está olhando.
E, principalmente, quando algo dá errado.
Toda empresa será testada em algum momento.
A pergunta não é se isso vai acontecer, mas o que a reputação construída até ali será capaz de sustentar.
Porque reputação não se improvisa.
Ela se acumula.
E quando o holofote se intensifica, não há campanha que resolva. Só resta aquilo que já foi vivido, praticado e percebido ao longo do tempo.






