Tamareira

Em 19 de maio, o executivo Stuart Kirk, chefe global de “Responsible Investment” do banco HSBC, fez uma palestra num evento do jornal Financial Times onde minimizou os riscos do aquecimento global e mudanças climáticas. Seu argumento baseava-se no fato de que, mesmo que exista um aquecimento global, os efeitos são de longo prazo. “Quem se preocupa se Miami ficará 6 metros abaixo d’água em 100 anos?” – foi uma das perguntas que ele fez para sustentar a sua posição.  Com o título: “Por que investidores não precisam se preocupar com o risco climático”, ele concluiu sua palestra afirmando que há risco zero para os investidores quando se olha para o curto prazo. Diante da repercussão negativa, o banco HSBC rapidamente soltou uma nota dizendo que estava suspendendo o executivo e reafirmou que suas opiniões não estavam alinhadas com a visão estratégica do banco. 

O “sincericídio” cometido pelo executivo ecoa na nossa consciência coletiva e, talvez, tenhamos vergonha em admitir que podemos pensar igual a ele. Por que me preocupar com o que pode acontecer daqui a 100 anos se eu não estarei mais por aqui? Já não se nega que os países desenvolvidos, cujos padrões de produção e consumo colocam em risco a sustentabilidade da vida no nosso planeta geram desigualdades sócio-ambientais. Estamos inseridos em um modelo baseado no crescimento econômico que não respeita a capacidade da natureza de prover e repor seus recursos muito menos em absorver os resíduos produzidos pelo consumo da sociedade. O que os cientistas afirmam é que a natureza cobrará o preço pelo desrespeito ambiental promovido pelos homens. Mas como não é algo no curto prazo, nós simplesmente ignoramos o fato. 

Existe um antigo ditado árabe que diz: “Quem planta tâmaras, não colhe tâmaras!” Isso porque, no passado, uma tamareira levava algumas décadas para produzir os primeiros frutos. Então, seguindo a lógica do curto prazo, não existiriam tamareiras no planeta. E se hoje podemos ter o privilégio de comermos tâmaras, é porque alguém pensou mais no próximo do que nele mesmo. 

Uma das características dos humanos é a consciência da finitude. Sabemos que bilhões de pessoas vieram antes de nós e, em tese, outros bilhões de seres humanos viverão após a nossa partida. Se a morte faz parte da vida fica a pergunta: qual é o legado que deixaremos para as próximas gerações? Seremos “plantadores de tamareiras” ou simplesmente estaremos interessados em explorar e exaurir os recursos existentes sem considerar aqueles que virão depois de nós? Quando nossos filhos observarem nossas pegadas e seguirem o rastro da nossa história, em que lugar eles se encontrarão? 

Termino com as palavras de William Vollmann no seu livro “No Immediate Danger” onde ele escreve: “Um dia, num futuro não muito distante, os habitantes de um planeta mais quente, mais perigoso e biologicamente diminuído do que esse em que vivi talvez se perguntem o que você e eu tínhamos na cabeça. E nossa resposta sincera seria: Claro que fizemos isso conosco. Sempre fomos intelectualmente preguiçosos e quanto menos era exigido de nós, menos fizemos. Vivemos todos em função do dinheiro e foi em seu nome que morremos.”

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